Como falar sobre morte com crianças

Como falar sobre morte com crianças

Esta é a única certeza que temos. O assunto é difícil. As vezes, até os adultos evitam falar nele. Mas prorrogar a conversa com o filho por muito tempo não é a solução.


2ee7bc7b3b206c69d838b31c2b5f1789Por que falar neste assunto ainda é um tabu?

A morte faz parte do ciclo natural da vida, sendo a única certeza que temos. Esse assunto ainda é um tabu na nossa cultura ocidental, pois não é tratado com naturalidade, além de que as pessoas ainda têm muita dificuldade em romper vínculos, e se separarem definitivamente uma das outras. Quando alguém morre, também nos damos conta da nossa própria finitude.

Como o tema deve ser abordado com as crianças?
Os adultos que possuem um aparelho psíquico formado apresentam dificuldade para lidar com a morte, por isso é natural que as crianças que estão em fase de desenvolvimento cognitivo e formando a sua estrutura egóica também apresentem certa dificuldade. O tema deve ser abordado de forma natural, como parte de um processo evolutivo, onde todos nascemos e morremos. Uma forma simbólica é fazer essa criança olhar para a natureza, as estações do ano, os animais, onde existe um começo, um meio e um fim.

Qual a melhor idade para introduzir este tema de maneira que a criança já entenda o significado?
As crianças mais velhas compreendem mais a morte, porém independente da idade é muito importante falar com naturalidade, não ter medo de falar sobre os sentimentos que essa morte ocasiona mostrar que é algo que faz parte da nossa vida. Algumas crianças, com menos de sete anos tendem a não compreender a morte como algo concreto e real, pois elas ainda estão inseridas no universo da fantasia. Nas representações e vivências do seu cotidiano, por exemplo, nos desenhos infantis, quando um personagem morre, ele desperta logo em seguida, é um mundo muito fantasmático.

Crianças devem ir a velórios ou enterros?
Algumas crianças podem se sentir assustadas em tais locais, pois possivelmente encontrarão pessoas com expressões de tristeza, desespero, desmaios ou até tendo pequenos surtos. Os pais podem encontrar outra forma delas se despedirem desse ente querido, através de outros rituais de passagem, como rever fotos, objetos, situações, desenhos, soltar um balão, enterrar algum objeto significativo, escrever uma carta e recordar as experiências vivenciadas com a pessoa que faleceu.

Como contar que uma pessoa próxima a ela morreu?
É importante que exista muito amor nessa conversa, é preciso escolher alguém que essa criança tenha afetividade sinta confiança e segurança, alguém próximo e não um estranho qualquer. Mostrar que ela não esta sozinha, que ela pode contar com outras pessoas e que a pessoa não vai estar mais fisicamente com ela, porém estará sempre em seu coração e nas lembranças. O elo de amor sempre existirá independente da morte. É preciso, escolher um local tranquilo calmo e de preferência em que a criança já conheça. E por fim falar com naturalidade sobre a morte e mostrar que faz parte do ciclo natural da vida.

Qual a melhor forma de ajudá-la a passar por um luto?
O luto é um processo de reconstrução, reorganização e um trabalho psíquico de elaboração da perda. É importante ajudar essa criança a falar sobre o que ela esta sentindo, fazer ela se sentir acolhida, compreendida e em segurança. Em casos de o luto permanecer por muito tempo, é aconselhável que encaminhem para um profissional qualificado, ou seja, um psicólogo, para essa criança tenha um espaço único e exclusivamente para falar sobre os seus sentimentos.

Termos como “Ele foi dormir e nunca mais vai acordar”, “foi morar com Deus”, “foi fazer uma viagem longa e não voltará mais”, são positivas ou devem ser evitadas?
Sim, pois as crianças ainda possuem poucos recursos internos e fantasiam sobre a nossa realidade. Com tais afirmações ela pode compreender e internalizar que não pode dormir muito se não ela também pode não acordar mais, ou que essa pessoa pode sim acordar (gerando possivelmente crises de insônia), que Deus é “ruim”, pois levou com ele alguém que ela gostava ou até que as pessoas que viajam também não voltam mais. Mostrar para a criança que faz parte da vida morrer.

Quais as consequências quando a conversa sobre o assunto é evitado?
Não é aconselhável não falar da morte, pois muitas vezes o que não é falado é vivido, ou seja, através dos sentimentos e emoções. Quando não falamos, impedimos que essa criança vivencie um processo importante da vida. As consequências são que essa criança pode se sentir enganada, desamparada, desprotegida. Pode gerar pensamentos de que ela ocasionou a morte, ou que a culpa é dela, comportamento violento, irritabilidade, ansiedade, pesadelos, ideias pessimistas, Ela pode começar a negar a morte, regredir no seu desenvolvimento, se isolar dos amigos, ter falta de apetite ou muito apetite.

Entrevista cedida ao site:  http://www.revistanovafamilia.com.br/index.php?link=modulos/conteudo/views/viewConteudoId.php&id=1130

Responder

Your email address will not be published. Required fields are marked *