Crise é sinal de alerta para depressão

Crise é sinal de alerta para depressão
Casos de suicídio no bairro chamam atenção para reflexo da crise econômica na população
Thieny Molthini

Há algum tempo a crise econômica do país tem acendido um alerta sobre a segurança pública. Pouco se fala, no entanto, de um efeito que vai além criminalidade, a depressão. Apenas este ano, Alphaville registrou dois casos de suicídio. O delegado acredita que ocorrências como essa podem aumentar. E psicóloga alerta para a importância de se falar sobre a doença e procurar a ajuda de um especialista.

À frente do 2º DP em Alphaville desde janeiro, Daniel Juns dos Santos afirma que os dois casos tinham histórias parecidas. Homens com mais de 45 anos, casados, com filhos, que tinham uma condição financeira confortável, mas que por conta das dificuldades econômicas acabaram entrando em depressão, ou tiveram traços da doença reforçados por conta das dificuldades. A fuga foi o suicídio, um dentro de casa, com arma de fogo, outro pulou de um prédio na alameda Araguaia. O primeiro caso foi registrado no começo de março, o segundo no dia 12 deste mês.

Historicamente, em momentos de crise essas situações tendem a aumentar. A saída é estar atento aos sinais da depressão e buscar ajuda.

Moradora e psicóloga atuante no bairro, Gabriela Medeiros Barbosa (www.gabrielapsicologa.com.br)tem observado o aumento na procura por atendimento. “A palavra ‘crise’ está em todos os lugares e isso tem afetado mais as crises pessoais e quando falamos em crise financeira, quando é preciso mudar o padrão de vida, isso traz o sentimento de impotência, baixa autoestima, tristeza. Não é que a crise financeira cause a depressão, mas por conta de um conjunto de fatores pessoas mais fragilizadas acabam se deprimindo e o ápice da depressão é o suicídio”, explica a especialista.

De acordo com Gabriela, a depressão é uma doença multifatorial, ou seja, não existe apenas um motivo para que seja desenvolvida, há questões psicológicas, sociais (como a crise financeira) e, inclusive, químicas. Quem tem uma mãe depressiva, por exemplo, tem mais chance de ter a doença.
Segundo a psicóloga, a força da palavra “crise” acaba afetando de maneira inconsciente. Fala-se tanto sobre crise, que as pessoas acabam acessando as próprias crises, existenciais, matrimoniais. “Elas acabam tendo de entrar em contato com isso.”

Além da sensação há os fatos em si, quando pensamos em crise econômica, especificamente, há ainda a questão do desemprego, que afeta a autoestima do indivíduo. “A pessoa sente que não serve para nada, ela perde a sua função social. Quando um pai de família que sustentava a casa fica desemprego ele se pergunta qual o seu papel naquela família”, comenta.

Por isso é preciso ficar atenção aos sinais, para identificar um possível quadro de depressão.

É importante ainda desmistificar a depressão. “Depressão é diferente de frescura ou tristeza e para alertar é preciso falar sobre ela.”

A depressão, segundo Gabriela, atinge a pessoa com uma tristeza profunda, uma angústia. Existem alguns sintomas para identificar a doença (leia quadro abaixo). Dependendo do grau de depressão é preciso que a pessoa seja medicada (com um psiquiatra) e, independentemente da medicação (muitas vezes o paciente não ter forças para sair da cama), é preciso ainda o acompanhamento psicológico, para que se trate tanto as consequências quanto as causas da doença. “Não adianta depender do remédio a vida inteira, é preciso tentar encontrar o porquê desse quadro depressivo, dessa angústia”, explica.

Quando não é tratada, a depressão pode ter a morte como ponto final, já que para algumas vítimas da doença o suicídio acaba surgindo como a única saída possível para que a angústia causada pela depressão chegue ao fim, uma forma de não precisar lidar mais com determinado sentimento.

“Se a pessoa não procura ajuda, a depressão pode ser mais longa e acabar no suicídio. A pessoa acredita que se matando não precisará pagar as contas, lidar com o sofrimento”, ressalta. “Mas não tem como afirmar o motivo da morte, mesmo que as pessoas deixem cartas, a resposta morre com ela, a gente trabalha com hipóteses. É preciso entender que a depressão é uma doença”, reforça a psicóloga.

http://folhadealphaville.uol.com.br/cidade/24227

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